| No
momento em que as grandes utopias do século XIX
revelaram sua "ineficácia", parece
urgente criar condições para um trabalho
coletivo de reconstrução de um universo
de ideais. Neste cenário, é interessante
verificar como o ideário de "transformação
social e pessoal", ganha centralidade, ao ser definido
como o primeiro passo para mudanças mais gerais
e, ao refletir o "espírito de um novo tempo",
que por vezes retoma elementos de um passado que se
supunha superado, influenciando determinados grupos
sociais.
Desta deste contexto, é importante pensar
a questão da crise real ou aparente de sistemas,
instituições e agências tradicionais
produtoras de sentido, não tanto a partir de
uma análise do que está agora acontecendo
nelas, mas sim, através de uma reflexão
a respeito do que está ocorrendo no campo das
reciprocidades sociais e simbólicas onde se
articulam (Velho, 1998).
Esta situação complexa tem indicado
a emergência de uma nova modalidade de religiosidade,
uma maneira de os indivíduos se religarem com
a vida, com a história e, fundamentalmente,
consigo mesmo. Uma perspectiva cuja "eficácia"
está na produção de novos sentidos,
pertinência, novas direções de
mudança e de valores básicos da vida
social.
Tendo essas questões como fundo, nos últimos
anos realizei um estudo mais amplo, em que busco compreender
o problema do "experimentalismo religioso"
ou da errância religiosa" como uma das
novas condições da existência
espiritual e religiosa na sociedade contemporânea,
sustentando como faz Soares (1989), que a experimentação
é a idéia matriz da chamada "cultura
Nova Era", face aos modelos morais e religiosos
da modernidade. Se, como indicavam algumas análises,
é o sujeito que se identifica como o local
de síntese, às voltas com suas aproximações
e afastamentos, escolhas e mediações,
ao tentar incorporar suas diferentes experiências
na busca constante de seu auto-conhecimento, fazendo
uniões e junções que aparentemente
poderiam ser consideradas as mais disparatadas, seria
importante explorar determinadas trajetórias
de vida visando a reconstituição e o
entendimento desse novo tipo de sincretismo em movimento,
como bem definiu Amaral (2000).
A partir dos resultados desse trabalho, que tinha
como eixo central a análise de trinta histórias
de vida, tive a atenção voltada para
um caminho espiritual, que apareceu numa das trajetórias
analisadas. Assim, na presente comunicação
discuto como o Caminho de Santiago de Compostela,
inscrito no contexto da cultura da Nova Era, vem-se
tornando bastante significativo junto a um segmento
social específico (camadas médias urbanas),
levando os indivíduos a reestruturarem seus
ethos,, visões de mundo e estilos de vida,
em decorrência, sobretudo, da produção
de sentido e de pertinência experimentados durante
a peregrinação.
Meu objetivo principal é interpretar o conjunto
de crenças e de valores que estão associados
às atividades, ações e práticas
vivenciadas por aqueles que percorrem o Caminho e,
mostrar, como o ideário de transformação
pessoal e social, base do projeto de autoconhecimento,
pode-se tornar um importante recurso cultural, com
alta densidade simbólica, ao produzir novas
formas de ação e de expressão
para determinados indivíduos.
Circunscrevo basicamente a minha análise aos
significados do Caminho e seus aspectos rituais. Portanto,
sobre um conjunto de manifestações simbólicas
inscrito na ordem da significação, capaz
de ser lido, revelado e interpretado.
Sustento que este ideário emerge no contexto
do que vem sendo denominado de Nova Era (1) ,
onde diversas experiências, práticas
e vivências, marcadas por uma linguagem singular
(onde trafegam bens, signos e símbolos com
forte conotação "religiosa"),
indicam mudanças de orientação,
comportamentos e valores em esferas importantes da
vida social. Como por exemplo, nas relações
das pessoas com o "sagrado", nas suas inserções
no mundo do trabalho, nas suas relações
familiares, em suas relações com o cotidiano
da vida, influenciando na maneira das pessoas "construírem
seus mundos".
Como pretendo mostrar, este ideário tem como
substrato o desejo de mudança, tanto do próprio
eu, como da sociedade e, particularmente das relações
sociais. Portanto, seria um equívoco reduzir
o significado das experiências particulares
a uma só interpretação. Assim,
entendo a peregrinação como um "fluxo
de discursos em disputa", no qual o mundo de
cada pessoa (pessoal, social, cultural, etc) influencia
o que ela acha, valoriza, critica ou rejeita.
Singularidades do Caminho
Considerada uma das romarias mais tradicionais do
Catolicismo, ao lado de Roma e Jerusalém, o
Caminho atrai, a todo ano, um número significativo
de pessoas(2) ,
de diferentes nacionalidades, que iniciam a peregrinação
em diversos locais da Europa. Constituindo-se assim,
em um fato social de importância indiscutível,
não só por sua dimensão simbólica,
como também pelo amplo sistema de relações
sociais, econômicas, políticas e religiosas
que mobiliza em torno de si.
Uma das principais características do Caminho
de Santiago é que diferentemente dos outros
centros de peregrinação europeus populares,
como Fátima (Portugal) ou Lourdes (França),
cuja devoção por uma maioria católica,
está centrada na Virgem Maria, os atos rituais
essenciais dos peregrinos de Santiago de Compostela
não ocorre dentro das fronteiras sagradas da
igreja, ou em seu contorno. A ênfase na viagem
e, em como se alcança a igreja (a pé,
de bicicleta ou a cavalo) marca a diferença,
assumindo um significado especial. A longa jornada
tem duplo aspecto - físico e espiritual.
Enquanto os principais centros católicos voltados
à devoção Mariana (Lourdes, Fátima,
Guadalupe e Medjugorje, na Bósnia) se baseiam
em milagres ou aparições que ocorreram
depois de 1850. A peregrinação a Santiago
se baseia numa tradição que se afirma
remontar à fundação do cristianismo.
Minha hipótese central é a de que a
principal força de atração do
Caminho está justamente em sua capacidade de
incorporar a diversidade do campo católico
e responder também a outras demandas, "religiosas"
ou não, que são levadas para este lugar
considerado "sagrado".
O Caminho se transformaria assim, em palco de disputas
em torno dos sentidos do sagrado, onde se confrontam
diferentes discursos, particularmente, dos peregrinos
"tradicionais" (que seguem a tradição
católica) e daqueles que visam, sobretudo a
"transformação pessoal", embora
estes não sejam os únicos, nem são
excludentes entre si.
O Caminho, no entanto, não é apenas
uma metáfora da transformação
pessoal e social. Seu principal significado está
na forma como esta experiência afeta cada pessoa
de forma única e particular, apesar das regularidades
e constâncias que podem ser encontradas. Neste
sentido, acredito que a forte mobilização
em torno do Caminho está relacionado, sobretudo,
à sua flexibilidade, ao seu hibridismo, capaz
de acomodar várias interpretações
de seus espaços e encontros.
Ao descreverem os motivos que os levaram a fazer
o percurso, os peregrinos conferem-lhe significados,
infundindo-lhe emoção a partir de uma
experiência singular. Mais do que uma peregrinação
de cunho aparentemente religioso, resistente às
inovações e reformas do catolicismo,
como consideram algumas análises, acredito
que a atual peregrinação à Santiago
de Compostela se revela como um evento "reinventado"
em diferentes momentos e formas por seus agentes.
Universo da Pesquisa
Meu material de pesquisa vem sendo constituído
a partir das seguintes fontes: a)entrevistas em profundidade
com indivíduos que pertencem a Associação
dos Amigos de Santiago de Compostela no Brasil; b)
síntese dos aspectos recorrentes nos trinta
e seis (36) livros escritos e publicados, até
o presente, por brasileiros que fizeram o Caminho,
levantando os principais temas, idéias recorrentes,
valores expressos, imagens e impressões; c)
análise dos temas recorrentes, das trocas,
dos intercâmbios entre os peregrinos que frequentam
o principal grupo de discussão sobre o Caminho
no Brasil; d) trabalho de campo na rota jacobea, para
realizar entrevistas in loco; e) levantamento junto
aos Centros de Documentações existentes
na Espanha sobre o Caminho; f) entrevistas em profundidade
(como controle) com pessoas que fizeram o Caminho
mas que não pertencem à Associação
de Amigos de Santiago de Compostela no Brasil.
Ao analisar as narrativas construídas em
torno desta experiência, busco interpretar:
a) o seu significado social; b) os principais motivos
que levam um número cada vez maior de brasileiros
a fazer uma rota de peregrinação de
mais de 800 km, situada no norte da Espanha; c) a
construção de uma nova categoria de
"peregrinos" que se expressa através
de uma linguagem particular, constituída por
uma extensa rede de significados e de práticas
sociais e, c) os signos e símbolos associados
a esta linguagem , que ordena a história pessoal
dos modernos peregrinos.
A partir destes dados busco traçar o perfil
socioeconômico dos peregrinos brasileiros(3)
,comparando-os com os dados gerais disponíveis,
apreender suas motivações em relação
ao interesse em fazer o Caminho de Santiago e discutir
o sentido social atribuído às experiências
antes, durante e depois de realizado o percurso. Interessa-me
sobretudo, desvendar em que medida estas experiências
levam aos agentes sociais a re-elaborarem suas visões
de mundo, estilos de vida e suas práticas sociais.
Abordo também algumas questões relativas
à criação de uma rede nacional
e transnacional entre os peregrinos de Santiago de
Compostela, destacando sobretudo a circulação
de conceitos, valores e definições de
tradição e de realidade.
Este objeto tem me levado a rever alguns dos fundamentos
da prática etnográfica, na reformulação
epistemológica de uma noção clássica
da Antropologia: a definição do campo
de pesquisa restrito a uma realidade local bem delimitada.
Os contatos cada vez mais freqüentes entre os
peregrinos (ex e futuros) de todo o mundo através
de sites e homepages, leva-os a um intenso intercâmbio
de idéias, valores e modelos comportamentais,
de trocas simbólicas dos mais diversos tipos,
sugerindo a aplicação da noção
de "rede" para explicar as modificações
atuais do campo religioso.
Privilegio a descrição da experiência
da peregrinação, das narrativas e do
ethos daqueles que se põem no Caminho e, que
repetem ritualmente o dinamismo da Historia da Salvação,
com uma meta específica: a catedral de Santiago
de Compostela - lugar onde se veneram as relíquias
de um dos apóstolos de Jesus de Nazaré.
Ao que tudo indica, o peregrino brasileiro é
um viajante animado por motivações que
vão mais além de uma viagem turística,
de uma curiosidade intelectual, etc. Abandona sua
familia temporariamente para empreender uma viagem
que o levará ao lugar de um encontro nada banal,
que transborda sua cotidianeidade.
Em certa medida, podemos reiterar a idéia
de que foram os escritos dos pensadores medievais,
o suporte espiritual a partir do qual se estruturou
a peregrinação jacobea.(4)
No entanto, no caso específico deste trabalho,
a questão é perceber de que maneira
os inúmeros livros nacionais escritos sobre
o Caminho(5) ,
funcionam como suporte ao projeto de seguir em rumo
à Santiago de Compostela?
Atualmente existem dezenas de Associações
de Amigos do Caminho de Santiago de Compostela em
todo mundo, reconhecidos pela "Xunta de Galícia"
e, centenas de homepages , chats e grupos de discussão,
com a finalidade de promover a troca de experiências
e vivências, bem como auxiliar as pessoas motivadas
por fazer o caminho.
Em minha pesquisa mais ampla, venho acompanhando
as práticas e ações das Associações
existentes no Brasil, bem como a mais antiga lista
de discussão e homepage existente sobre o Caminho
(www.caminhodesantiago.com.br).
Através deste recurso metodológico,
tenho procurado analisar a circulação
de uma série de temas, conceitos, valores e
definições em torno do Caminho, numa
rede nacional e transnacional que une peregrinos de
todo mundo e, em particular, de todo o Brasil.
Esta rede, que prega a universalização
do Caminho, parece priorizar a apresentação
do Caminho à Santiago de Compostela como um
caminho espiritual, um caminho de transformação
e de auto conhecimento.
Ao que tudo indica, esta rede de comunicação
reproduz uma outra rede, que constitui uma das características
do chamado "movimento Nova Era".
Michael York (1975) , tem utilizado a noção
de rede para analisar a "nebulosa do New Age".
Uma das características deste modelo seria
a sua essência fortemente segmentada, com múltiplos
centros ligados por uma terminologia comum e um mesmo
núcleo de idéias básicas.
Mas, se é verdade que a rede internacional,
que une os peregrinos brasileiros, franceses, espanhóis,
alemães, etc. possui múltiplos centros,
ligados aos distintos modelos de peregrinação,
é também verdade que eles são
unidos por um conjunto de crenças e atitudes
semelhantes.
Neste sentido, até que ponto podemos constatar
uma verdadeira homogeneização cultural
na imagem veiculada pelos peregrinos do Caminho de
Santiago de Compostela nestes fóruns internacionais?
Em que medida também, podemos falar do mundo
ou do universo do Caminho de Santiago, uma vez que
estamos lidando com redes sociais e "padrões
de ação coletiva" que permitem
o exercício concreto desta prática?
Até o presente momento o que a pesquisa tem
demonstrado é que temos aí matrizes
discursivas recorrentes e, que é inegável,
que um conjunto de comportamentos, produtos, valores
e símbolos associados a esse universo começa,
pela sua recorrência, a conformar um padrão.
Apesar da presença e da influência da
religião católica no universo do Caminho,
esta certamente não representa o seu dado mais
marcante. A dimensão da espiritualidade e da
transcendência ganha centralidade, independente
da origem cultural dos peregrinos. Sendo uma constante
nos discursos e nas práticas, desde uma versão
mais soft, de enlevamento proporcionado pela contemplação
da natureza, por exemplo, até experiências
de ordem mística.
Os conceitos de transformaçào, de auto-conhecimento,
de terapia, também predominam nos discursos,
como uma língua franca que indica a comunicação
entre peregrinos de diferentes nacionalidades e contextos
sociais específicos.
O Caminho e a tradição
Durante o percurso, os peregrinos reinventam a tradição
milenar.(6)
Acredito que é justamente, em decorrência
da articulação entre tradições
tão distintas que convivem e se
reforçam mutuamente, no diálogo entre
o conteúdo mítico e o conteúdo
das experiências vividas com dramaticidade emocional,
que o ritual ganha densidade e se diversifica, compondo
a pluralidade polifônica e multifacetada de
seus discursos e rituais.
A peregrinação é entendida como
uma ação que alarga as "fronteiras"
pessoais e sociais e cria uma rede de comunicação
alternativa. Cada peregrinação é
vivida como uma performace do drama da transformação
pessoal.
Nas palavras de uma informante " Percorrer a
pé o Caminho de Santiago de Compostela é
vivenciar uma experiência de autoconhecimento
considerada bastante difícil e arrojada".
Entretanto, qualquer que seja a "coerência"
da lógica simbólica expressa nas práticas
de busca do auto-conhecimento, essa perspectiva não
explica porque um grande número de pessoas
toma parte nestas práticas, ou como tais práticas
se tornam públicas. Não conseguindo
explicar igualmente as formas específicas que
as práticas de auto-conhecimento públicas
parecem assumir, onde quer que ocorram.
A peregrinação é assim, um meio
de se evocar a tradição, na medida em
que os atores acionam referências religiosas,
práticas rituais e símbolos que foram
acumulados em torno do Caminho. Entretanto, ao que
tudo indica, hoje, estas são reapropriadas
e rearticuladas para socializar suas idéias
e comportamentos através de outros discursos.
Desta forma, a peregrinação é
também um meio através do qual seus
participantes fazem contato com o núcleo da
sua cultura, lançando mão de novos valores
e recriando a tradição, o que configuraria
um determinada visão de mundo.
Convém ressaltar que qualquer evento se desdobra
simultaneamente em dois planos: como ação
individual e como representação coletiva.
Ou melhor, como lembra Sahlins (1994) como a relação
entre certas histórias de vida e uma história
acima e além dessas outras. Por outro lado,
a multiplicidade dos discursos em torno do Caminho
é condição da sua própria
existência. Acredito que é justamente
tal possibilidade de compatibilizar diferenças
e de responder a demandas diversas que torna o Caminho
acolhedor e com abrangência internacional.
A tradição associada à rota
Jacobea é, portanto, continuamente reinventada
pelos peregrinos, hospitaleiros, igreja e membros
de diferentes associações de amigos
do caminho, como um forma de legitimar valores, códigos,
ações, práticas que cada uma
destas categorias considera centrais dentro de suas
redes de convenção.
O Caminho como ritual
Os sentidos da peregrinação
Peregrinar é sobretudo buscar e busca-se movido
pelo desejo de fazer realidade plena nossa existência.
Neste sentido, ao que tudo indica a vivência
é única e intransferível.
A princípio, toda peregrinação
implica numa tríplice estrutura: um homem que
transita por uma rota; uma meta, escolhida por sua
relação com o sagrado; e uma motivação
para encontrar-se com a realidade misteriosa e invisível.
Inseparável da arte de viajar, está
o anseio de romper com os hábitos da nossa
vida comum, e de se afastar pelo tempo necessário
até ver realmente o mundo em casa, e de se
afastar pelo tempo necessário até ver
realmente o mundo ao seu redor. Para a maioria dos
informantes, "caminhar, andar é a melhor
forma de sair da mente".
A peregrinação é comumente vista
como uma busca universal do eu. Embora a forma da
trilha mude de cultura para cultura e das diferentes
épocas da história, um elemento permanece
o mesmo: a renovação da alma (Cousineau,
1999).
A finalidade expressa da peregrinação
é tornar a vida mais significativa. Pela viagem
sagrada, as pessoas podem encontrar o caminho do divino,
a fundamental fonte da vida. A essência do caminho
sagrado é traçar uma rota sagrada de
testes e escolhas, provações e obstáculos,
a fim de chegar a um lugar sagrado e tentar alcançar
o segredo do seu poder. Por meio da partilha desse
território sagrado que as pessoas chegam não
somente a descobrir a idéia de sua origem e
o seu destino, mas a de ter experiências daquilo
que revela o significado de suas vidas. Um processo
de despertar e se transformar que precisa ser experimentado
diretamente, o que cada um terá de fazer por
si mesmo.
Como Cousineau (1999), citando Otavio Paz nos lembra,
a experiência e o caminho do sagrado são
similares porque elas jorram da mesma fonte. Essa
fonte é o desejo. Desejo profundo de ser outra
coisa, diferente daquilo que se parece ser. Assim,
"a verdadeira jornada é feita com fé
e a pé".
Como tem sido ressaltado por muitos antropólogos,
os rituais marcam o tempo, organizam o espaço
- duas maneiras de definir o que queremos dizer com
o sagrado. Assim como temos de estar atentos para
identificar a fonte do nosso desejo, também
é importante para o viajante ver claramente
como e quando realizar a viagem.
Como a grande maioria dos entrevistados ressaltou,
"durante o percurso se tem uma relação
diferente com o tempo, uma liberdade de pensamento
que não se tem em casa - ou que não
se permitem em casa, onde somos sobrecarregados de
relações e de responsabilidades."
A tônica que marca os discursos "é
a menos que você deixe espaço para o
imprevisto, como pode o divino entrar em você"?
O começo da aventura de "encontrar a si
mesmo está em perder o caminho", ou ainda
como está no título de um dos livros
brasileiros sobre o Caminho, "Perdi meu roteiro,
encontrei meu caminho". A filosofia fundamental
da peregrinação poderia assim ser resumida:
o clímax do ritual é alcançado
quando se descobre que "você não
é você", por identificação
com o outro e não com o ego. Ou melhor, com
uma natureza ainda não definida pelos códigos
da cultura e da sociedade. Esta moralidade do constante
"tornar-se" como valor está sempre
presente.
A lendária hospitalidade e a reconhecida consideração
conferidas aos peregrinos também contribuem
para o sentimento de prazer e gratidão que
cercam a aventura. Em toda parte, o caminho dos peregrinos
é duplo, exterior e interior, contendo o movimento
dos pés e da alma no tempo e no espaço.
O sentido do sagrado despertado no Caminho revela
a realidade que tem o poder de transformar as vidas.
Seja lá o que for essa realidade: uma deidade,
a base do ser, o vazio, o inconsciente, o self, a
natureza, o absoluto - o encontro com ela liberta
quem a encontra das concepções formuladas
pelo ego. O despertar de um sentido de sagrado, torna
as pessoas conscientes de uma realidade mais profunda
e de uma vida mais significativa. Ajudando-os, segundo
os informantes, a "varrer vários conceitos,
valores e preconceitos", "despertando novas
percepções e uma nova consciência".
O indivíduo transformado em self desrespeita
fronteiras sociais e reencontra a humanidade.
A idéia da metáfora da peregrinação
como sendo uma jornada com um propósito, também
é recorrente nos discursos. Além disso,
acredita-se que a "peregrinação
celebra a identidade pessoal", "conduz à
definição de nós mesmos".
Tendo o "efeito milagroso" de apagar pecados.
O círculo completo é um símbolo
da alma - uma imagem da totalidade - e o fim da jornada
é tornar-se novamente um todo. A arte da viagem
é a arte de "ver o que é sagrado".
O importante da peregrinação "é
aperfeiçoar a si mesmo enfrentando as dificuldades
que surgem". Desta maneira, todas as jornadas
são rapsódias sob o mesmo tema da transformação
e da descoberta do self..
Neste sentido, os elementos de identidade com a peregrinação,
freqüentemente acionados pelos entrevistados,
não são regidos somente pelo particularismo
católico, mas sobretudo por valores e práticas
centradas no ideário de transformação
e, no compromisso social com o próximo, numa
profissão de fé que é traduzida
no ethos perregrino, no Estas experiências são
assim, bastante significativas para os indivíduos,
levando-os, por vezes, a expressar sentimentos de
renovação física, espiritual,
pessoal e social - eis porque alguns peregrinos referem-se
ao trajeto como Caminho da transformação.
Ao retornarem às suas vidas cotidianas, muitos
expressam o desejo de tomarem uma decisão,
de agirem, ou de serem menos materialistas, de serem
mais generosos com os outros, de trazer sua vida espiritual
para a prática do dia-a-dia. Outros tomam decisões
mais radicais - deixar o emprego, mudar de profissão,
se mudar, ou alterar uma relação . A
confiança e a força que vêm durante
o percurso levam muitos a quererem levar estes sentimentos
para a vida diária. Muitos experimentam desapontamentos,
todos se sentem tocados, ninguém é indiferente
à experiência.
Nesta perspectiva os elementos de identidade com
a peregrinação, freqüentemente
acionados pelos peregrinos, não são
regidos somente pelo particularismo católico,
mas sobretudo por valores e práticas centradas
no compromisso social com o próximo, numa profissão
de fé que é traduzida no ethos peregrino,
no ser peregrino.
Finalizando, vemos que dentro deste panorama, o valor
da experiência é exacerbado, convertendo-se
no critério supremo e determinante de um novo
tipo de religiosidade, ou melhor, de uma "nova
consciência religiosa". Onde ganham centralidade
e se sobressaem as vivências e práticas,
o experimentalismo, a expressão das emoções,
intuições, crenças difusas e
místicas capazes de promover o auto-conhecimento
e o bem-estar. Enfim, talvez faça parte do
"espírito da época" (Velho,
1999) repensar o individual e o coletivo, o sagrado
e o profano, a religião e a magia, as dimensões
objetivas e subjetivas da vida social, em novas bases.
Referências:
 (1)
Tenho consciência
da dificuldade de conceituação do
têrmo Nova Era, ou melhor, da dificuldade
de se encontrar um termo que possa abranger, sem
controvéria, um cultura religiosa descentralizada
e errante, em um campo onde diferentes discursos
se cruzam e diversas áreas da vida social
se misturam. No entanto, para nomeá-lo,
mantenho o termo Nova Era porque ele surge no
movimento histórico que , nos anos sessenta
e setenta, tornou visível essa cultura
religiosa, cuja forma de expressão espiritual
tem sido dominada pela metáfora da "transformação"
e pelo experimentalismo religioso. No entanto,
até hoje não existe um termo comparável
que aborde todos os aspectos da cultura religiosa
em questão (Amaral, 2000). Por isto, para
efeitos deste trabalho, sigo a definição
utilizada no New Age Encyclopedia, para o qual
o Movimento Nova Era pode ser definido por sua
experiência de transformação.
Seus adeptos têm experimentado ou estão
diligentemente procurando uma profunda transformação
pessoal, de uma vida antiga e não acitável
para um novo e interessante futuro. (Lewis, apud
Melton, 1992:07).
 (2)
Segundo os dados disponíveis
pelo Registro de la Oficina de Acogida de Peregrinos
de Santiago de Compostela, a peregrinação
cresceu vertiginosamente nos últimos dez
anos, sendo expressivo o número de peregrinos
oriundos do Brasil, que ocupa o terceiro lugar
entre os povos que mais realizam a peregrinação
à Santiago. As estatísticas gerais
referentes a este período revelam que,
a partir de 1990, houve um aumento bastante expressivo
de peregrinos (1990 - 4.918; 91 - 7.274; 92 -
9.764; 93 - 99.436 (Ano Santo); 94 - 15.863; 95
- 19.821; 96 - 23.218; 97 - 25.179; 98 - 30.126;
99 - 154.613 (Ano Santo); 2000 - 55.004).
 (3)
Por intermédio da Associação
Brasileira dos Amigos de Santiago de Compostela,
examinei as fichas daqueles que solicitaram e
receberam a credencial de peregrino. Através desse
instrumento é possível delinear a seguinte composição
socio-econômica dos peregrinos brasileiros: 90%
fizeram o caminho a pé e 10% de bicicleta; 60%
eram mulheres e 40% homens. A idade média é de
40 anos. Predominando aqueles que tem alto nivel
de escolaridade, quanto comparados com a média
de brasileiros em geral, a grande maioria tem
curso superior (80%) e é expressiva a participação
daqueles que desempenham profissões liberais -
advogados, médicos, arquitetos e engenheiros,
predominando os analistas de sistemas. A maioria
é proveniente de áreas urbanas e das grandes capitais
brasileiras como : Rio de Janeiro, São Paulo,
Belo Horizonte, Recife, Brasilia, Curitiba e Rio
Grande do Sul.
 (4)
Entre os séculos XI e
XV, o trânsito intenso de peregrinos transformou
Compostela no mais importante centro político
e econômico do norioeste da Espanha. Em 1135,
surge a primeira obra sobre o Caminho de Santiago
de Compostela, que se tornou o principal guia
para os peregrinos. O padre francês Aymeric Picaud
escreve uma crônica de viagem contendo informações
detalhadas sobre a peregrinação. A obra completa
de Aymeric, uma homenagem de cinco volumes sobre
São Tiago e intitulada Liber Sancti Jacob, foi
dedicada ao Papa Calixtino e, por isso, passou
à História com o nome de Códice Calixtino. O guia
do peregrino, como ficou conhecido combina inspiração
e referências úteis, e hoje é visto como o protótipo
dos modernos guias de viagem.. Durante a Idade
Média, ir em peregrinação a um lugar sagrado tornou-se
prática imensamente popular, e essa foi, a seu
modo, o antepassado do turismo moderno.
 (5)
Um aspecto importante
de ser destacado é que, embora fazer a peregrinação
seja sempre uma decisão pessoal, ela pode estar
marcada pela influência de vários fatores, especialmente
mediados por aqueles que já viveram esta experiência.
A maioria dos entrevistados até o momento mencionaram
que tiveram conhecimento do Caminho através da
leitura do livro " O Diário de um mago", escrito
por Paulo Coelho e publicado no Brasil em 1986.
Hoje existem mais de cinquenta livros escritos
por brasileiros. Outro fator mencionado com bastante
frequência são os programas especiais que foram
realizados sobre o Caminho. Sobretudo, os que
foram produzidos pela Globo, que concentra a maior
audiência de telespectadores do Brasil. Este canal
produz semanalmente um programa denominado Globo
Reporter, onde foi apresentado dois programas
especiais sobre o Caminho. Nos últimos três anos
pelo menos cinco programas foram produzidos pela
televisão brasileira sobre o Caminho - dois apresentados
pela Globo, um pela SBT, outro pela Rede Vida
(canal religiosos) e por último, um programa produzido
pelo Saúde&Alternativa, do GNT. Somado a isto
é cada vez mais frequente o número de pessoas
que relatam suas experiências em forma de livros,
que passam a constituir importantes fontes de
referência.
 (6)
O termo "tradição inventada"é
utilizado num sentido amplo, mas nunca indefinido.
Inclui tanto as "tradições"realmente inventadas,
construídas e formalmente institucionalizadas,
quanto as que surgiram de maneira mais difícil
de localizar num período limitado e determinado
de tempo - às vezes coisa de poucos anos apenas
- e se estabeleceram com enorme rapidez. Por "tradição
inventada"entende-se um conjunto de práticas,
normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente
aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou
simbólica, visam inculcar certos valores e normas
de comportamento através da repetição, o que implica,
automaticamente, uma continuidade em relação ao
passado. ( Hobsbawn e Ranger, 1997: 09).
|
Bibliografia
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