| Muitos tentarão te demover da idéia de seguir
a pé até Finisterre. "Não há nada
para se ver no Caminho", "É perigoso", "Não
tem onde dormir", "Vá de ônibus", "Os cachorros
não são presos" e "Siga a carretera (estrada)"
são as frase mais comuns. Mas a esta altura você
já aprendeu a graça da coisa e quer mais é
seguir em frente.
Finisterre era o objetivo das primeiras peregrinações,
há milênios: o "Fim da Terra", quando ela ainda
era plana. Ali o Homem ia se confrontar com o Fim, com o
seu fim, com a Morte, tão bem representados pelo
pôr do Sol no imenso oceano sem horizonte. Ali também
o Homem encontrava com o Renascimento, igualmente bem representado
pelo nascer do Sol no dia seguinte. Rituais de Fecundidade
são representados em pinturas na pedra em imemoriais
ruínas. Em um "Leito do Santo" na Capilla de San
Guilermo as mulheres inférteis tentavam engravidar
(religiosamente abençoadas).
Finisterre assim representava (representa) não somente
o fim de uma jornada, mas também o início
de uma outra: a volta. O reinício, o recomeço,
estando o Peregrino agora mudado. Os rituais não
poderiam ser mais significativos: depois de ir até
o fim da terra (onde há um farol), você desce
até o mar onde devolve sua Concha até o Oceano,
queima suas roupas de Peregrino/a, mergulha totalmente nu/nua
(numa água gelada) e vê o Sol se pôr
(ou morrer) no Mar. E então, retorna ao Mundo. Renascido.
Não dá para cumprir tal ritual de consagração
de ônibus...
É muito difícil conseguir informações
sobre como ir de Santiago à Finisterre a pé.
A Oficina de Peregrinos de Santiago de Compostela dificulta
mas fornece duas cópias muito ruins com um mapa e
um roteiro. O melhor guia é o suplemento nº
47 da revista "Peregrino" chamado "Prolongación Jacobea
a Fisterra y Muxia", extremamente detalhado (não
se o consegue em Santiago, mas sim nas Associações
de Amigos do Caminho: aqui do Rio, tente também em
Santo Domingo de La Calzada e em León). Mas você
também precisa da tal cópia do mapa da Oficina
de Peregrinos de Santiago de Compostela, para ter uma noção
do todo. Acabaram-se as setas amarelas, os refúgios
e os cachorros presos. Você agora vai andar pelo mato
desconhecido, em um trajeto de aproximadamente 80 quilômetros.
A caminhada à Finisterre faz um bem enorme. Quanto
mais perto de Santiago você ia chegando, maior a quantidade
de Peregrinos, grupos barulhentos, caminhantes e turistas
- ou seja, adeus paz de espírito. Pois caminhando
até Finisterre você está de volta à
calma, à paz, à introspecção.
No início é muito difícil. Você
se perde muitas vezes e logo aprende que vai ter que conversar
com todo mundo, que vai ter que construir o seu caminho.
Uma bússola para ajudar, dois mapas, muita conversa
e muito feeling (não se preocupe, após
a peregrinação à Santiago o teu
feeling de caminhante está tinindo!): é assim
que serão seus próximos 3 dias.
Não há o que discutir no primeiro dia: o
trajeto é até Negreira, a 20 Km. de Santiago.
São 20 quilômetros em condições
bem diferentes das que você está acostumado,
portanto não pense que vai percorrê-los no
mesmo tempo e com a mesma calma dos últimos tempos
de Peregrinação (a Galícia nos deixou
mal acostumados...). Primeiramente um pouco de mato; depois
uma perigosa carretera; finalmente você começa
a caminhar pelas estradas comarcais. Povoados graciosos
e gente simples e simpática. E subidas puxadas sob
sol escaldante.
No meio deste primeiro dia, uma pérola: Ponte Maceira,
com uma maravilhosa e enorme ponte medieval, uma das mais
bonitas do caminho (e com uma vista extasiante). Do outro
lado da ponte, a capilla de San Blás, padroeiro das
doenças da garganta: não deixe de tomar um
pouco da água de sua fonte (aliás pode encher
logo o cantil com esta geladíssima água santa...).
Negreira tem pensões, restaurantes e mercados: é
fácil se virar. Fiquei (e comi) na pensão
La Mezquita, quarto a 1500pts. (=US$12), que recomendo.
No segundo dia a coisa complica: a próxima pensão
fica em Ceé, a 44 Km. de Negreira e 12 Km. antes
de Finisterre; ou seja, você vai ter que achar alguma
coisa no caminho. E este caminho vai sendo feito a cada
passo. Cada pessoa com quem você conversa te dá
uma idéia diferente de por onde prosseguir, cabe
a você decidir.
Para encontrar onde dormir desviei-me 4 Km. do rumo e fui
dormir em Picota (capital do município de Mazaricos),
próxima a Lagos, 26 km. depois de Negreira (não
se preocupe, o Guia dá todas as dicas). Uma bússola
é indispensável neste caso. A recompensa,
alegria: sua peregrinação está chegando
ao fim, você está chegando a pé ao Fim
da Terra. As testemunhas são as vacas, os cachorros
e a esta altura uns muito poucos passantes que você
encontra aqui e acolá: um pastor, duas crianças
brincando, um condutor de trator.
Ceé parece próximo a Finisterre, mas não
se engane: ainda falta muito (12 km.). Talvez seja preferível
seguir pelos caminhos das praias. Eu estava muito cansado
para tentar explorar e segui as perigosas carreteras paralelas
às praias, perdendo muito em visual e até
mesmo caminhando distância mais longas.
Finisterre é a mais maravilhosa recompensa que se
pode encontrar ao fim desta Peregrinação.
Uma cidade de pescadores acostumada a receber turistas de
um ou dois dias. Ali fiquei por toda uma semana, comendo
os mais deliciosos peixes e visitando inacreditáveis
lugares: o Farol do fim do Mundo, com seus penhascos que
te trazem todas as perguntas (e a certeza da inutilidade
das respostas); a Praia do Mar de Fora, ideal para o ritual
final do Peregrino e banhos de mar sem roupas; a praia da
Langosteira com sua cor incomparável; uma segunda
visita ao Farol à noite (sempre a pé); as
belíssimas imagens de santos na Iglesia Paroquial
de Santa Maria das Areas; o enorme quebra-mar; e tudo mais
que você vai conhecer lá.
Recomendo a pensão chamada Casa Velay, da sra. Carmen:
por 2500 pts. (US$20) você fica no quarto mais nobre,
de frente para o belíssimo mar em uma inesquecível
enseada. Restaurantes existem aos montes, mas não
deixe de visitar os que ficam em frente ao Porto. Nas Galerias
Pérez você encontra informação,
souvenirs, literatura e receptividade da sra. Lourdes. Na
prefeitura você carimba sua credencial (carimbei até
meu passaporte!) com o 'sello' "Fin da Ruta Xacobea * Consello
de Fisterra". E no Patronato (e não na Igreja) você
obtém o último carimbo. Se der sorte, a sra.
Pilar escreverá em sua credencial: "Fisterra. Fin
Ruta Xacobea. Que el faro y la estrella te guie en tu caminar".
(Fisterre é Finisterre em galego).
Despeça-se dos maravilhosos vinhos, das botas imundas,
das bolhas: vai começar a viagem de volta.
De Fisterre à Santiago você vai de ônibus
(2 vezes ao dia, saindo da Estação Rodoviária
que fica no Porto). De Santiago à Madri, em trem
noturno (6 leitos por cabine).
Fiz este trajeto em julho de 1996, e o recomendo a todos
os Peregrinos. É uma coroação de sua
aventura. Mesmo não podendo ir a pé, ao menos
visite Finisterre de ônibus. E reserve um bom tempo
para sua estadia lá. É um prêmio mais
do que merecido por tudo o que você passou.
TRAJETO:
1º Dia (20km.)
SANTIAGO DE COMPOSTELA - saída da cidade e então
trilha pelo mato até Sarela de Baixo - estrada comarcal
até Vidán - estrada perigosa até Roxos
e Vilastrexe - estradas comarcais através de Augapesada,
Carballo e Ponte Macieira, e chegando a Negreira.
2º Dia (26km.)
Estrada comarcal por Vilaserio - carretera até
Maroñas e A Mola (opção de saída
a Pino do Val, a 20 km. de Negreira e 6,5 Km. fora da rota,
com pensões; não recomendo pois o desvio é
grande e restaria uma distância superior a 40 km.
até Finisterre no 3º dia) - estrada comarcal
através de Bon Xéxus até Lago, com
desvio de 4 km. até Picota.
3º Dia (34km.)
Carretera até Oliveroa e Hospital Dumbria - saída
quase oculta entre os escombros em frente à Fábrica
de Carburos metálicos de Dumbria para o Camiño
Real - 9 km. de estrada de terra por cima dos morros sem
povoados até Ceé, à beira-mar - daí
a Finisterre, seguir o litoral.
Marcio Guedes
RJ, 29.mar.1997
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