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1 - Preparativos para a viagem
Um dos meus sonhos está preste a ser realizado.
Caminhar uma distância razoável, 78 km,
por exemplo, em mais de um dia.
O grupo organizador me enviou, através de e-mail,
todas as orientações e, principalmente,
a relação do equipamento básico
para enfrentar três dias consecutivos
do Caminho das Missões no trecho de São
Miguel das Missões a Santo Ângelo. Até
o momento, já havia feito, num só dia
e sozinho, até 28 km, em diferentes situações.
O desafio estava feito. Fiz um levantamento do equipamento
que já dispunha e acrescentei o que faltava.
Esta experiência será uma amostra para
a realização de um outro sonho maior
que é fazer o Caminho de Compostela, o Caminho
Francês, num total, aproximado, de 841 km.
2 - Embarque no dia 24/01/02, Quarta-feira
Acordei cedo, às 6 horas, revisei o equipamento,
tomei café com a minha esposa LORENA e com
o filho RICARDO. Rumei para a Estação
Rodoviária de Porto Alegre e pontualmente o
ônibus da Empresa Ouro e Prata partiu às
8 horas rumo a Santo Ângelo. Ao chegar naquela
estação deparei com duas senhoras equipadas
com mochilas e que, provavelmente, participariam da
caminhada. Eram a JANE e a BERENICE, que se deslocavam
com o mesmo objetivo. Mais tarde, no mesmo ônibus,
identifiquei dois outros caminhantes, o "vô",
o " bisô", o "mestre", o
"mágico" MÁRIO e o CRISTIAN.
Chegamos em Santo Ângelo, local do encontro
preliminar, exatamente às 15 horas e 15 minutos,
onde fomos recebidos na Estação Rodoviária
pela MARTA e pelo "pequeno" CLÁUDIO,
aliás o nosso guia na caminhada. Rumamos para
o centro da cidade e, após tirarmos fotos junto
à Catedral do grupo, composto de 14 pessoas,
iniciou-se a reunião para as orientações
sobre o referido caminho.
Concluída esta etapa, numa van nos deslocamos
para a cidade de São Miguel das Missões,
com muita expectativa na bagagem. Nos instalamos na
Pousada das Missões, homens num salão
e mulheres noutro, e fomos conhecer as ruínas
da redução missioneira. Feita a visita
guiada, jantamos num restaurante anexo às ruínas,
onde nos deliciamos com o famoso "carreteiro
missioneiro", cuja receita a cozinheira se negou
a nos dar.
Já, neste momento, o grupo estava totalmente
entrosado, composto de 11 homens e de 3 mulheres.
O "múltiplo" MÁRIO e a BERENICE
já fizeram o Caminho de Compostela, relatando,
constantemente, as suas experiências ao grupo.
Após o jantar, retornamos às ruínas
para assistir o excelente espetáculo de luz
e som. Findo o show nos dirigimos à pousada
para dormir.
3 - Dia 25/01/02 - Sexta feira
O funcionário da pousada nos chamou exatamente
às 5 horas e 30 minutos. Fomos tomar café
(bem "missioneiro") e às 6 horas
e 40 minutos, depois de realizar alongamentos e orações,
o grupo iniciou a caminhada com o dia ainda escuro
e nublado, rumo à Carajazinho.
A primeira parada foi numa fonte de água, localizada
atrás das ruínas, de onde saía
o abastecimento para a redução jesuítica.
Aproveitamos para ajustar o equipamento, enquanto
ouvíamos as explicações do guia
sobre o local.
O sol apareceu com muita intensidade e o calor logo
se fez presente. Conforme o previsto fizemos diversas
paradas para descanso e para realizar alongamentos
físicos.
Numa destas paradas deitamos na relva, próximo
a um cemitério e de uma pedreira de onde era
extraída a matéria prima para as construções
das reduções missioneiras. Neste momento
já havíamos caminhado, aproximadamente,
14 km. Descansados e mais descontraídos, seguimos
mais 3 km e chegamos às ll horas e 40 minutos,
5 horas após a partida, num lugar chamado Esquina
Ezequiel, onde a SANDRA, o MILTON e a filha SANDRINE
nos esperavam com um suculento almoço caseiro,
composto de saladas (tomate, alface, couve), arroz,
feijão, galinha, abóbora refogada, massa
e sobremesa com doces da região, tudo
acompanhado de excelente suco de laranja.Após
o almoço o grupo tirou uma merecida "siesta"
no galpão onde ele foi servido, já que,
naquele momento, o calor era insuportável.
Saímos, em continuação, exatamente
às 15 horas e 10 minutos sob sol ardente. A
estrada, que em muitos lugares apresentava quantidade
expressiva de pedras soltas, foi sendo vencida lentamente
face o calor reinante. Chegamos em Carajazinho exatamente
às 19 horas e 45 minutos, vencendo 34 km. Neste
momento, superei a minha marca pessoal que era, num
só dia, 28 km. Só por isso, eu já
estava muito satisfeito, apesar do cansaço
físico. O ELOI, o médico que participava
da caminhada juntamente com o seu filho menor VICENZO,
teve muito trabalho antes, durante e depois da realização
do trajeto, no atendimento aos caminhantes com bolhas,
calos e dores.
Fomos instalados numa Escola Municipal, onde os colchões
nos esperavam ansiosamente... A janta se fez no Bolicho
do JOÀO e da NELI, porém antes da mesma,
houve um sarau de declamação realizado
pela ALINE, a filha do casal ADÃO e NOELI,
donos de outro bolicho da região. O cardápio
era composto de churrasco missioneiro, acompanhado
de salada, de arroz, e de um excelente suco de limão.
Após a janta o sarau continuou, com a participação
da famosa dupla campeira "CLÁUDIO-MARCUS"
e do dono do Bolicho, o JOÃO, que declamou
poesia de JAIME CAETANO BRAUN, pajador emérito
daquela região missioneira, falecido em passado
recente. Fomos, então dormir.
4 - Dia 26/01/02 - Sábado
Fomos despertados às 7 horas, tomamos um típico
café missioneiro composto de café servido
numa chaleira, leite "verdadeiro" da vaca
do JOÃO, pão caseiro, nata, mel, melado
e, partimos rumo às ruínas da redução
de São João Batista , exatamente, às
8 horas.
O dia estava nublado, soprando uma pequena brisa,
ambiente adequado para a realização
de uma caminhada em grupo. O rendimento, por isso,
melhorou consideravelmente. O FRANCISCO e os seus
filhos FLÁVIO e GUSTAVO, sempre ponteando o
grupo, dispararam estrada a fora, deixando, vez por
outra sinais de que eles estavam vivos... Fizemos
uma parada grande numa casa de fazenda, onde a caseira
CRISTINA nos ofereceu água e café, demonstrando
a típica hospitalidade missioneira. Esta data
foi particularmente marcante para o CRISTIAN pois
ele estava completando 33 anos de vida. O grupo o
saudou e o "versátil" MÁRIO,
representando a "ala jovem" do grupo, o
presenteou com os seus quatro ovos de estimação.....
Chegamos em São João Batista exatamente
às 11 horas e 15 minutos e nos dirigimos ao
Bolicho do Adão, neste momento com uma chuva
miúda, localizado defronte às ruínas
da redução missioneira. Fomos visitá-las
sob uma chuva mais intensa, tendo como guia local
o ELÓI, que explicou com muita propriedade
o que alí aconteceu. Como aperitivo, comemos"
os "ovos" do CRISTIAN, agora já cozidos....
Almoçamos no Bolicho do ADÃO uma comida
bem caseira preparada pela sua esposa (???????) ,
composta de arroz branco, arroz de forno, bife acebolado,
batata (QUE BATATA!), saladas diversas, ótimo
suco de limão e excelente sobremesa composta
de doce de bolacha e de pudim.
Durante o almoço a MARTA, uma das organizadoras
do evento, entrou em contato com a Rádio Santo
Ângelo que fez uma homenagem aos "PELEGRINOS"
e ao aniversariante CRISTIAN, ausente no momento,
pois estava "despachando" na patente...
os "ovos e a comida".
Às 14 horas e 5 minutos partimos em direção
à Fonte das Ãguas, localizada no município
de Entre-Ijuís, onde será realizado
o pernoite, sob chuva forte e com a temperatura mais
amena. Estávamos experimentando uma novidade
na caminhada, ou seja, a chuva e o barro. Diante desta
realidade, o grupo se dispersou e os caminhantes foram
chegando aos poucos naquele parque. Neste trecho caminhei,
na sua maior parte, com o simpático casal MARTHA-SÉRGIO,
quando desenvolvemos grandes "papos amigos",
abaixo de chuva grossa e deslizando no barro vermelho.
Os destaques foram os cães ( os melhores amigos
dos homens...conhecidos deles) e a ponte de ferro
sobre o rio Ijuizinho. Segundo o nosso competentíssimo
guia, o CLAUDIO, o Parque das Fontes, ficava "logo
alíííííí.....,
após aquela "subidiiiiiinha"......
Instalados nas barracas do camping, o grupo começou
a se reencontrar junto ao bolicho do Parque, onde
foi recepcionado pelos donos MÁRIO e JANDIRA,
com aquela tradicional hospitalidade missioneira que
experimentamos durante toda a caminhada.
Antes do jantar, o "eclético" MÁRIO
realizou um ritual característico da Galícia
, chamada de "Queimada", no qual teve a
participação de todos os integrantes
do grupo. Esta cerimônia consiste em colocar
num prato álcool e frutas e flambá-los
e, os participantes, individualmente, realizam pedidos
pessoais. Quando o fogo se expirou, a bebida foi ingerida
pelos presentes. Logo após foi servido o jantar
composto de salada de couve com cenoura, arroz, galinha
feita numa panela de
ferro (que galinácea...) e polenta cortada
com fio de linha.
Ficamos conversando até às 23 horas,
aproximadamente, e, após, o grupo foi se recolhendo
as respectivas barracas. Me instalei junto com o ELÓI
e o seu filho VICENZO. Neste momento a noite estava
clara, com uma bonita lua cheia.
Às 2 horas da madrugada do dia 27 começou
a cair uma chuva torrencial seguida de raios e de
trovões. Como fui campista de barraca por muito
tempo, fiquei em alerta total e, a cada momento, eu
verificava o nível da água dentro dela,
até que às 5 horas e 30 minutos eu a
abandonei com o meu equipamento, esperando o dia "clarear"
junto aos banheiros.
Nesta "madrugada espontânea" aproveitei
para colocar em dia este relato e preparar o equipamento
para o último dia.
5 - Dia 27/01/02 - Domingo
Às 7 horas o grupo começou a se organizar
para o último dia da caminhada. Fomos tomar
café no Bolicho do Parque (mais uma vez o típico
café missioneiro). O grupo, ainda sob chuvarada
e barro liso, começou, a partir das 8 horas,
cumprir o derradeiro trecho, que apesar de ser o menor
(14 km), foi, provavelmente, o mais difícil,
dadas as condições do tempo.
O grupo se dividiu em grupos menores e foi adiante.
Eu cumpri a maior parte do trajeto junto com a BERENICE,
quando desenvolvemos excelentes assuntos. Na travessia
da balsa do rio Ijuizinho encontramos o MARCUS e a
JANE, com os quais cumprimos, até Santo Ângelo,
a caminhada. O destaque neste trecho foi o MARCUS
que estava com "menos um dedo no pé e
com os joelhos de lavadeiras de chão"....Aliás,
não sabemos como, em certo momento ele apareceu
com "polainas" nos "garrões...",
porém, justiça seja feita, ele fez uma
aterrissagem sensacional na entrada da balsa, quase
matando o balseiro...
Às 11 horas e 30 minutos o grupo começou
a chegar na Matriz de Santo Ângelo, fiel réplica
da Igreja das ruínas da Redução
de São Miguel. A emoção tomou
conta do grupo e todos se abraçaram mutuamente.
Fomos recepcionados pelos organizadores o ROMALDO,
a MARTA e a GLADIS. Logo após o Padre (???????)
fez a benção aos "PELEGRINOS",
o grupo rezou a Deus agradecendo aquele momento ímpar
que estava vivenciando. Findo esta atividade me dirigi
a um hotel próximo da Catedral para tomar um
necessário e obrigatório banho, pois
a minha cor era de um tom avermelhado......e eu tinha
que possuir condições mínima
de entrar no ônibus de regresso a Porto Alegre
às 14 horas. Após este `alívio"
me dirigi ao restaurante para participar do almoço
de despedida do grupo, onde um excelente galeto acompanhado
de saladas diversas e arroz "ansiosamente"
nos esperava....
No encerramento, o "multidisciplinar" MÁRIO
fez a última "mágica" e desenvolveu
palavras que representaram o espírito do grupo
na caminhada. Após, antes de embarcar para
Porto Alegre, eu também fiz menção
por poder realizar um sonho/desafio justamente com
um grupo homogêneo e fraterno como este.
6 - O retorno
Embarquei no ônibus da Empresa Ouro e Prata,
juntamente com a BERENICE, que conseguiu antecipar
a viagem, e, às 14 horas e 10 minutos ele partiu.
Talvez pelo cansaço físico e por uma
noite mal dormida , logo adormeci. Próximo
a Soledade, antes da parada do ônibus, acordei.
Neste momento, comecei a sentir a sensação
de "por que terminou este sonho"? Me veio
à mente os seguintes sentimentos: realizei
mais um sonho, conheci pessoas sensacionais, visitei
lugares que nunca antes tinha visto e revivi valores
da minha infância de 50 anos atrás (hospitalidade,
fraternidade, companheirismo, igualdade, humildade,
simplicidade), aliás tão esquecidos
nesta vida moderna e agitada que vivemos. Tive tempo
para fazer grandes reflexões pessoais e, por
tudo o que aconteceu nestes dias, agradecendo à
DEUS, eu digo `VALEU, E MUITO, MAIS ESTA EXPERIÊNCIA
DE VIDA".....
Ao chegar em Porto Alegre, estavam me esperando na
Estação Rodoviária, a minha esposa
LORENA, a qual presenteei com a cruz missioneira,
e o meu filho RICARDO.
Muito obrigado FRANCISCO, FLÁVIO, GUSTAVO,
MARTHA e SÉRGIO, BERENICE, JANE, ELOI, VICENZO,
CRISTIAN, MÁRIO, MARCUS, CLÁUDIO, MARTA,
GLADIS e ROMALDO pelos momentos inesquecíveis
que passamos juntos e que estarão indeléveis
no meu coração. Até breve.
Com saudades,
Brasilio."
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