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Na
esteira e nos moldes do Caminho de Santiago, há alguns
anos começaram a surgir Caminhos no Brasil.
O primeiro deles parece ser o “Passos de Anchieta”,
no Espírito Santo. Aqui no Rio Grande do Sul
surgiu em 2002 o “Caminho das Missões”.
Em maio de 2004 participei de um grupo de caminhada.
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O “Cartão
Postal” das Missões: fachada da
Igreja de São Miguel Arcanjo |
Histórico – Os Sete Povos das Missões
Com o objetivo de cristianizar os índios guaranis
e assegurar os domínios espanhóis na
bacia dos rios Paraná e Uruguai, os padres da
Cia. de Jesus utilizaram uma eficiente estratégia:
as chamadas Reduções. Agruparam os índios,
que viviam dispersos em pequenos aglomerados na selva,
para facilitar a catequização e a defesa
contra os ataques dos escravagistas coloniais – tanto
espanhóis quanto portugueses. Assim começaram
a surgir verdadeiras cidades, em território
hoje pertencente ao Paraguai, Argentina, Brasil e Uruguai,
formando a República Guarani. Esta “República”,
embora submetida à Coroa Espanhola, gozava de
uma relativa autonomia administrativa e economica,
prosperando por quase 200 anos.
No território que hoje corresponde ao Rio Grande
do Sul as Reduções tiveram 2 ciclos distintos.
O primeiro foi iniciado em 1.626 com a fundação
de São Nicolau, seguida da criação
de cerca de 18 núcleos, até 1634. Deste
primeiro ciclo não resta nenhum vestígio,
pois as Reduções – ainda incipientes – foram
arrasadas pelos Bandeirantes, liderados por Raposo
Tavares. Os índios que não foram mortos
ou escravizados migraram então para o lado Ocidental
do Rio Uruguai e se abrigaram em Reduções
alí existentes.
Após a derrota dos paulistas – na histórica
batalha de Mbororé – inicia-se o segundo
ciclo das Reduções em solo riograndense,
com a fundação de São Francisco
Borgia (São Borja), em 1.687, seguido da re-fundação
de São Nicolau, São Luiz Gonzaga e São
Lourenço Mártir. Todas no mesmo ano.
Mais tarde surgiram, sucessivamente, São Miguel
Arcanjo, São João Batista e, por último,
Santo Ângelo Custódio, em 1706. Estas
Reduções passaram a ser conhecidas como
os “Sete Povos das Missões da Banda Oriental
do Uruguai”. Desenvolveram-se e alcançaram
grande esplendor e riqueza. Entre os índios
frutificaram as mais diversas artes, especialmente
a música, a pintura e escultura. Praticavam
a agricultura e a criação de gado, exportando
volumosos produtos excedentes. São os responsáveis
diretos pela atual vocação agro-pastoril
do Pampa gaúcho e alguns dos hábitos
indígenas persistem até nossos dias,
como – por exemplo – o chimarrão.
Com o Tratado de Madri, em 1750, o reino de Espanha
cedeu os Sete Povos para Portugal, em troca da Colônia
do Sacramento – pequena cidade fortificada em
frente a Buenos Aires, no atual território uruguaio.
O mesmo tratado estabelecia que os índios e
jesuítas dos Sete Povos deveriam abandonar as
Reduções e suas terras, levando consigo
apenas os bens móveis e semoventes, num prazo
de um ano. Compreensivelmente, os índios se
rebelaram contra as determinações reais
e resistiram, liderados pelo mítico Sepé Tiarajú.
Acabaram derrotados pelos exércitos coligados
de Portugal e Espanha na Batalha de Caiboaté,
em 1756.
Apesar de o Tratado de Madri ter sido revogado pelo
Tratado de Santo Ildefonso, as Reduções
entraram em franca decadência, acentuada pela
expulsão dos jesuítas em 1768. Depois
disso os Sete Povos ainda trocaram várias vezes
de mão, entre Portugal e Espanha e Brasil e
as novas Repúblicas do Prata, acabando totalmente
destruídos após o saque promovido pelo
general uruguaio Frutuoso Rivera, em 1827. Assim, tristemente,
se exterminou um povo e seu sonho de “uma terra
sem males”.
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O Caminho
segue por estradas de terra |
O Caminho das Missões
Todos estes componentes de interesse histórico,
colorido épico, figuras lendárias, motivação
religiosa e importância cultural parecem ser
elementos mais do que suficientes para motivar um percurso
a pé, revivendo a história. Esta percepção
foi sentida por um grupo de pessoas de Santo Ângelo,
que começou a trabalhar no projeto a partir
do ano 2000. Após pesquisa, prospecção
para estabelecimento do roteiro e da infra-estrutura
e realização de caminhadas experimentais,
este grupo (ligado a uma Agência de Propaganda)
passou a operar o “Caminho das Missões”.
Integrei a 31ª Peregrinação Oficial,
de 22 a 29 de maio de 2004.
Participantes
Olhando à segura distância este crescente
número de pessoas que se dispõe a fazer
caminhadas de longa duração, enfrentando
o cansaço, a chuva, o frio (ou calor), o barro
e abdicando de qualquer conforto material, algumas
perguntas surgem ao natural: Que tipo de gente participa
deste “programa de índio”? São
pessoas “normais”? Qual a motivação
desta infantaria?
Vamos por partes.
O nosso grupo contava 15 integrantes:
- Romaldo, o “amigo peregrino” é o
caminhador profissional. Quando não está caminhando,
mora em Santo Ângelo. Solícito, discreto,
atencioso e bem humorado. Especialista em bolhas, tendões,
pés e afins.
- Juliana, mineira, mora no interior de São
Paulo, com jeito de carioca. Analista de Sistemas,
jovem mãe de dois “minino”. Experiente
em caminhadas, avança rápido. Permanentemente
risonha.
- Bruno, estudante da UFRGS, 21 anos, mora em Porto
Alegre. Faz o Caminho como trabalho de campo para a
conclusão da cadeira de Antropologia. Inusitadamente
culto, estuda o grupo, faz entrevistas e toma notas.
Procura manter, sem muito êxito, uma distância
de observador dos acontecimentos e das pessoas. Faz
alongamentos antes e depois das jornadas, com fervor
quase religioso.
- Carlos Alberto, juiz de direito aposentado, pai de
Bruno. Veterano do Caminho de Santiago. Reflexivo e
sensível. Sério, sem ser sizudo. Excelente
companhia para longos papos sobre qualquer assunto,
superficial ou profundo. É o cronista e porta-voz
do grupo.
- Lori, formada em Educação Física
mas trabalha com Processamento de Dados. Mora em Porto
Alegre, mas nasceu no interior. Introspectiva e alegre.
- Alexandre, mora em Brusque, SC. Jovem comerciante,
já fez o Caminho de Santiago. Caminha rápido.
- Rudimar, de Porto Alegre, empresário do ramo
de imóveis. Alegre e participativo. Fazia relatórios
diários ao celular para sua esposa, enquanto
alguns companheiros já roncavam no dormitório...
- Egídio, o brincalhão. Humorista fino
e observador sagaz. Logo distribuiu apelidos: Meritíssimo,
Delegada, Amigo Perdidinho... Trabalha com publicidade
em Porto Alegre. “Gringo” da Serra gaúcha,
morou 11 anos no exterior, mais tempo em Londres.
- Júlio Cesar, diretor de importante empresa
imobiliária de Porto Alegre. Caminha com dificuldade
em razão de seqüelas de acidente. Persistente,
apesar das dificuldades, foi até o fim.
- Sandra, carioca, professora da UERJ. Já fez
o Caminho de Santiago. Está aqui pesquisando
para um livro. Calma, quieta mas participativa. Observadora.
Aprecia o que observa.
- Adelaide, a “tia”. Viúva, agropecuarista
aposentada. Acompanha a sobrinha e, apesar da idade, é mais
resistente do que esta.
- Salete, a sobrinha. Trabalha em funções
administrativas na Polícia Federal, em Florianópolis.
- Paulo Zilio, gaúcho de Carazinho, é agropecuarista
em São Domingos, SC. Veterano de Compostela.
Caminha sempre na ponteira, embora não seja
propriamente da ala jovem do grupo.
- Paulo Fiorese, gaúcho de Tapera, mora em São
Domingos. Geotécnico. Prático e bem disposto.
- José Cláudio, eu próprio. Casado,
50 anos, 2 filhos, corretor de imóveis em Novo
Hamburgo.
Dito assim, todos parecem ser pessoas absolutamente
comuns e normais.
Na verdade, só se pode entender a ação
transformadora que uma caminhada contínua, de
médio ou longo percurso, opera no caminhante,
de uma forma: caminhando. A sensação
de despojamento e a consequente liberdade é percebida
somente ao longo do processo. E quem experimenta uma
vez, costuma repetir.
Tanto isto é verdadeiro que os 15 participantes
deste 31º Caminho das Missões poderiam
ser agrupados em duas categorias: a) aqueles que já fizeram
o Caminho de Santiago, b) aqueles que estão
se preparando para, no futuro, fazê-lo. Para
os primeiros, o Caminho das Missões é uma
revivência do Caminho de Santiago, que serve
de referência e objeto de constantes comparações,
além de fonte de relatos. Caminham, geralmente à frente
do grupo, com o passo firme que a experiência
lhes confere. Tratam os do segundo grupo com uma solícita
condescendência. Para a segunda categoria (na
qual me incluo), o Caminho é uma experiência,
um exercício e um aprendizado para vôos
mais altos.
Os peregrinos podem ser classificados em grupos, por
outros critérios.
Alguns aparentemente procuram apenas uma forma organizada, leve e compartilhada
de se exercitar. Outros parecem estar alí para esquecer ou “dar
um tempo” na sua vida. Outros, ainda, dão especial importância
aos aspectos históricos e culturais ligados ao caminho. Por fim, alguns
se interessam em observar os próprios caminhantes sob a ótica
da antropologia, metodicamente (como Bruno e Sandra) ou diletantemente (como
Carlos Alberto e eu mesmo). Além disso, os interesses podem estar combinados.
Mas,
além da motivação física,
mental, cultural ou investigativa que impulsiona os
caminhantes, existem razões mais subjetivas
e quase imperceptíveis. Parece existir uma vontade
de se re-ligar às origens de hábitos
e tradições cultivados desde tempos imemoriais
até nossos dias. E por meio desta re-ligação
alcançar o contato com o espiritual, tantas
vezes ofuscado pelo tumulto em que se transformou o
moderno mundo real. Embora exista um certo pudor em
deixar aflorar a espiritualidade – e assim a
religiosidade – ao longo do Caminho se pode observar
um gradual “aliviamento”, que não
encontra explicação no meu “racionalismo
germânico”.
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O verde do
trigo brotando contrasta com o vermelho da estrada |
Percurso
O Caminho das Missões percorre 6 dos antigos
7 Povos das Missões, num trajeto de 180km, procurando
seguir trilhas originais da época das Reduções.
(Apenas a Redução de São Francisco
Borgia não está no roteiro, por razões
operacionais).
O grupo se junta em Santo Ângelo, no sábado,
após o meio dia. Na sede do Caminho, junto à Praça
da Catedral, os peregrinos são acolhidos pelos
organizadores Marta e Romaldo, recebendo algumas informações
práticas, um cajado e uma cruz missioneira peitoral,
talhada em madeira. O grupo segue, então, em ônibus
até São Nicolau, quase nas barrancas
do Rio Uruguai, por estradas asfaltadas. Assim, a “primeira
querência do Rio Grande” é o ponto
de partida do Caminho das Missões, em direção
a Santo Ângelo, sempre por estradas de terra.
A nossa caminhada propriamente dita se iniciou na chuvosa
manhã do domingo, dia 23.05.04. E a chuva e
o barro do caminho seriam nossos companheiros pelos
4 dias seguintes, nos quais passamos por São
Luiz Gonzaga, São Lourenço Mártir
e alcançando São Miguel Arcanjo, ao cabo
de 102km. Na quinta-feira, finalmente, pudemos seguir “a
pé enchuto” a partir de São Miguel,
chegando no final deste dia a um ponto perdido no mapa,
denominado Carajazinho. Sexta-feira, ao meio dia, visitamos
São João Batista e, após pernoite
no interior do município de Entre-Ijuís,
ao meio-dia de sábado estávamos de volta à Catedral
de Santo Ângelo.
Atrações do Caminho
1. Históricas
- Em São Nicolau existe o Sítio Arqueológico
delimitado, que se confunde com a praça central
da atual povoação. Uma parede do Cabildo
se mantém de pé, graças ao apôio
de uma vetusta figueira, que a entrelaça. Da
igreja resta apenas uma parede lateral e, recentemente,
descobriu-se vestígios do piso. Nos fundos da
igreja se observa a canalização de esgotos. À direita
da igreja pode-se imaginar a casa dos padres e, atravessando
uma rua atual, acha-se a parte mais bem conservada
da antiga Redução: a Adega! Por ser subterrânea,
foi poupada. Do outro lado da igreja está o
Museu Municipal. Pequeno, mas com peças interessantes,
especialmente uma Pia Batismal esculpida em pedra arenito,
que – segundo a guia Andréia – é a única
ainda intacta das Reduções. Distante
algumas quadras está o Solar Silva, construído
no início do século XX, integralmente
com pedras oriundas da Redução. Ao contrário
do costume da época, o patriarca Silva comprou
as pedras da municipalidade de São Luiz Gonzaga,
pagando 1 patacão por pedra (e assim fica-se
sabendo exatamente o valor de 1 patacão = 1
pedra de Redução...). O Solar hoje também
está em ruínas, mas prestes a ser restaurado.
- Em São Luiz Gonzaga, por obra da urbanização,
não existem mais sinais das construções
jesuíticas. A igreja Matriz, construída
no mesmo local da antiga, abriga displicentemente no
seu interior 12 belíssimas estátuas de
santos, esculpidas em madeira pelos guaranis, algumas
com feições indígenas. A mais
atraente delas é a de São Luiz Gonzaga
(atribuída ao missionário José Brasanelli),
que se encontra atrás do altar, no chão.
Existe também um Museu Arqueológico,
com parco acervo. A mais interessante peça é a “segunda única” pia
batismal intacta, esculpida. No museu vê-se,
entre estarrecido e indignado – uma foto do antigo
Colégio Jesuítico, feita pouco antes
da sua demolição, ordenada pelo prefeito
municipal na terceira década do século
XX(!), para dar lugar a uma rua.
- Em São Lourenço Martir, há Sítio
Arqueológico. Restos das paredes frontais e
laterais da imponente igreja podem aqui ser vistos.
A nave da igreja está tomada por portentosas árvores
de umbú, no solo vêem-se buracos escavados
pelos caçadores de tesouros e nas paredes se
observa o negrume dos incêndios. No lado direito
da igreja, vestígios da casa dos padres e se
imagina uma bela adega. No lado esquerdo, o cemitério,
ainda hoje utilizado pela comunidade local.
- São Miguel Arcanjo, tombada como Patrimônio
Histórico da Humanidade, possui o mais bem conservado
conjunto de ruínas. A fachada da igreja, com
suas colunas e capitéis caprichosamente esculpidos,
e parte da torre desenham contra o céu a silhueta
mais conhecida das Missões. As paredes laterais
e internas, com seus arcos, remetem com grande nitidez à glória
e ao esplendor do passado. O Museu, em bela construção
(projeto de Lúcio Costa) em frente à igreja,
possui rico acervo da arte missioneira. Transcrevo
as palavras do historiador Wolfgang H. Harnisch: “A
São Miguel deveriam ir os homens do Brasil Setentrional
e Central, dos Estados Unidos e dos países do
Prata, a fim de conhecer o recanto em que floresceu
uma cultura, o lugar que pertence ao painel artístico
de toda a humanidade, mas sobretudo ao do mundo americano.
(...) Aí chegando o visitante vê um esplêndido
panorama. Sobre um outeiro, a ruína da catedral,
um castelo rosado de arenito vermelho, brilhando sob
os raios do sol da tarde. E a ampla escarpa do outeiro
se perde ao longe, coberta de grama verde e manchada
de arbustos floridos de todas as cores. Conserva-se
ainda, na fachada principal, uma quantidade imponente
de ornatos arquitetônicos. A fartura de meias-colunas
e pilastras, de bases e capitéis, de volutas
e caracóis deixa perceber como essa construção
maravilhosa deve ter encantado, em seu tempo, aos homens
brancos e aos indígenas.” Nos limites
da atual cidade encontra-se uma graciosa Fonte Missioneira,
recentemente descoberta à sombra de taquareiras,
com um eficiente sistema de decantação
em tanques de pedra esculpida. Distante cerca de 10km
da Redução encontram-se vestígios
de uma Pedreira, de onde provinham as pedras das construções.
- São João Batista conserva restos das
paredes e piso da antiga igreja. Lembram, ainda que
palidamente, a descrição feita pelo Pe.
Sepp: “A igreja está pintada a diferentes
cores. Pelas colunas entrelaçam-se, não
sem elegância, cachos de uva e ramalhetes de
flores, como heras. Vêem-se dependurados nas
paredes quadros de diversos santos. (...) Digno de
ser visto em minha igreja é sem dúvida
também o enorme candelabro octogonal, dependurado
no lugar da lamparina, junto à grade do presbitério.
Está dividido em 32 candelabros menores, em
tamanho crescente. Esta iluminação confere
ao templo admirável esplendor e majestade, fomentando
a devoção. (...) Consegui as tijoletas
(do pavimento) com tanta facilidade que não
me lembro de tê-las visto melhores na Europa.
São hexagonais, mas bem variegadas. Destarte,
o pavimento antes parece juncado de frutas e de flores
verdadeiras do outono, que coberto com pedaços
de gleba informe. Certamente o admirará o ladrilheiro
europeu. Esta sorte de mosaicos embeleza admiravelmente
não só as residências dos padres
missionários, como muito mais a igreja.” Dentro
do Sítio está um belo monumento datado
de 1959, em pedra de arenito, homenageando o Pe. Antônio
Sepp, fundador desta Redução. O cemitério
guarani ainda hoje é utilizado pela comunidade.
Ao longo do Sítio encontram-se inúmeras
placas evocativas, com trechos do livro “Trabalhos
Apostólicos” escrito pelo Pe. Sepp, remetendo
ao princípio do séc. XVIII.
- Santo Ângelo não conserva nenhuma construção
original da Redução, em face da urbanização.
A atual igreja pretende ser uma réplica da igreja
de São Miguel. Na sua fachada ostenta estátuas
esculpidas em arenito (por Valentin von Adamovich)
dos padroeiros dos Sete Povos. No seu interior encontra-se
um “Senhor Morto” da época da Redução.
Perto da igreja está o Museu Municipal, com
interessante acervo, incluindo uma maquete da Redução.
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Rico detalhe
de uma coluna externa da Igreja de São
Miguel |
2. Artísticas e Culturais
Em muitos pontos de parada são apresentadas
inusitadas atrações com cores bem locais.
Algumas singelamente amadoras, outras de acabamento
profissional. Destaco especialmente:
- Tita, cantor e repentista. Apresentou-se após
o jantar, em São Nicolau, acompanhado do violão
e trajado a rigor. Cantou algumas músicas nativistas
e depois, de improviso, homenageou cada um dos presentes
cantando um verso personalizado, com extrema criatividade
e graça, arrancando risadas e aplausos.
- Argemiro, tocador de gaita de botão. Animou
o almoço de segunda-feira.
- Vídeo. Apresentado na Sacristia reconstruída
da igreja de São Miguel, recria – virtualmente – a
Redução de São Miguel, num trabalho
primoroso realizado pela Unisinos.
- Som e Luz. Este espetáculo, junto às
ruínas de São Miguel, é imperdível.
Utilizando apenas os recursos de luzes, vozes e o cenário
das ruínas, provoca arrepios. É apresentado
todas as noites e reconta, em linguagem dramática,
a história das Missões, centralizada
na Guerra Guaranítica. Apesar de já contar
com algumas décadas de produção,
mantém a atualidade.
- João Matos, declamador. Apresenta sua arte
após o jantar, em Carajazinho.
- Vídeo, apresentado na Recepção
do Sítio de São João Batista.
Provoca a reflexão.
- Claudino de Lucca, compositor, cantor, poeta e ator.
Atuou profissionalmente, inclusive na televisão.
Apresentou-se para o grupo após o jantar no
Parque das Fontes (onde atualmente reside), local do
nosso último pernoite. Suas músicas,
poesias e causos levam a platéia às lágrimas
e às gargalhadas, com uma facilidade surpreendente.
Verdadeiro show de um homem só. Fantástico.
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Árvores
crescem na nave principal da Igreja de São
Lourenço Mártir |
Hospedagem e Hospitaleiros
O Caminho das Missões percorre uma região
esparsamente povoada e com pouquíssima estrutura
formal de apoio para os caminhantes. Uma peregrinação
isolada (aberta) se torna quase impraticável,
por enquanto. A maioria dos pontos de parada são
previamente agendados pela organização
do Caminho e funcionam exclusivamente para os grupos.
Os locais, de maneira geral, são simples – como
convém – e a alimentação é farta
e saborosa. Os hospitaleiros são, na maioria,
pessoas benévolas e dispensam um tratamento
caloroso aos peregrinos.
O primeiro pernoite, em São Nicolau, é feito
num pequeno hotel nos fundos da Rodoviária,
em quartos duplos e banheiros coletivos. As refeições
acontecem num pequeno restaurante próximo, atendido
pela Dª Cleida e sua família. No primeiro
jantar o grupo contou com a honrosa companhia da Secretária
Municipal de Turismo, Andréia, do Sr. Prefeito
(Heitor) e da novel primeira dama (também Secretária
Municipal de Educação). Assim a pequena
cidade exprime seu entusiasmo com o Caminho das Missões
e as possibilidades de expansão turística
do município.
O almoço de domingo é servido pela mesma
prestimosa Dª Cleida numa casa de fazenda e contou
ainda com a presença da Secretária Municipal
Andréia.
O fim da primeira jornada se dá numa encruzilhada
conhecida por Rincão dos Teixeiras, após
31km praticamente desertos, sem shopping, lojas de
conveniência ou um bolicho sequer. Os caminhantes
embarrados são acolhidos maternalmente por Dª Antônia,
responsável pelo pouso e alimentação.
O local (uma escola rural desativada) extremamente
limpo, conta com 2 dormitórios e 2 banheiros
coletivos. Uma sala serve de refeitório.
O percurso
seguinte, de 21km, também se dá “no
meio do nada”. São Luiz Gonzaga – final
da etapa – é uma cidade de médio
porte, com boa infra-estrutura. Margareth Reichert,
artesã afável, recebe os peregrinos em
uma casa adaptada, com 3 quartos coletivos (dotados
de colchões no assoalho) e 2 banheiros, 2 salas
e ampla área de convivência nos fundos.
A atmosfera é muito zen, com velas, anjos e
quetais.
O almoço de terça-feira acontece na
fazenda do Sr. Argemiro e Dª Ana. Ela é irmã do
renomado cantor e compositor missioneiro, Luiz Carlos
Borges. Argemiro, muito espirituoso, também é gaiteiro.
A casa fica num ponto altaneiro, com bela vista, e
tem um farto pomar. Dª Ana, amabilíssima,
apresentou sua especialidade: Vaca Atolada. E as rapadurinhas
de leite e amendoim fizeram nosso deleite.
No fim da jornada chega-se no pequeno povoado de São
Lourenço das Missões. O pouso é num
casarão centenário, de propriedade de
Dª Cecília (mora em Porto Alegre e parece
ser a benfeitora do lugar) e atendido pela prestativa
funcionária Rose. Acomodação em
3 quartos coletivos. Apesar da idade, a casa oferece
boas condições. Excelente cozinha e a
mais apetrechada adega do Caminho.
São Miguel das Missões, apesar de pequena,
possui razoável infra-estrutura. Um grande e
refinado Hotel e um muito bem aparelhado Albergue – no
qual ficamos. Almoço, impessoal, num restaurante.
Jantar no próprio albergue, preparado por 3
peregrinos (Carlos Alberto, Romaldo e eu). Café da
manhã – rico – fornecido pelo Albergue.
Esquina
Ezequiel, pequeno agrupamento de casas junto a uma
escola desativada e um armazém, é o
ponto de almoço da quinta-feira, servido no
Salão Comunitário, por um jovem casal.
O local de pernoite, alcançado após longos
34km, é numa construção de 1852,
que abriga – desde sempre – um armazém-bolicho.
Atendido atualmente pela família Matos. Fica
numa encruzilhada semi-desértica, num ponto
elevado. Acomodação precária – o
grupo todo numa pequena edícula, em beliches
quase geminados. A família, apesar de esforçada,
não consegue dar à bela casa a manutenção
que merece.
Em São João Velho almoçamos na
sexta-feira, num agradável bolicho, bem em frente
ao Sítio de São João Batista.
O pernoite se dá no lindo Parque das Fontes,
um sítio de lazer e camping no interior de Entre-Ijuís.
Pode ser melhor desfrutado no verão, pois conta
com belas piscinas. A sorridente e afetuosa Dª Jandira
acolhe os peregrinos, junto ao pequeno refeitório.
As acomodações ficam em duas cabanas,
construídas especialmente para tal fim. O jantar
e o café da manhã, preparados por Dª Jandira,
foram primorosos.
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Caminhar no
barro e na chuva pode se tornar uma experiência
interessante... |
Emoções
Uma das perguntas, feitas pelo Bruno nas entrevistas
para o seu trabalho, dizia respeito à maior
emoção sentida no Caminho. Terminada
a caminhada, esta pergunta me fez refletir e relembrar
as passagens que tocaram fundo nos sentimentos, meus
e dos demais.
- A primeira forte emoção é sentida
na acolhida, ainda em Santo Ângelo. Os organizadores
sabem aproveitar muito bem a natural ansiedade gerada
pelas expectativas individuais e coletivas, fazendo
uma cerimônia de cunho ritualístico. Numa
sala escurecida, sentamos em círculo sobre almofadas
no chão. Música adequada convidava à introspecção.
Romaldo acendeu uma chama dentro dum caldeirão
colocado no centro da sala e neste fogo cada um jogou
um pouco de erva mate (um dos símbolos do Caminho), “queimando” assim
os sentimentos negativos. Em seguida cada peregrino
recebe um cordão com uma bela cruz de madeira,
entregue pelo “padrinho” sorteado ao acaso.
Finalmente, cada peregrino toma um cajado de taquara.
- Outro momento marcante acontece no ponto inicial
do Caminho. Parados sob a chuva, numa esquina de São
Nicolau, fomos convidados pelo Romaldo a um momento
de silêncio. Disse então que “aqui
iniciamos uma caminhada transformadora, da qual sairemos
melhores”. Em seguida rezamos juntos o Pai Nosso.
(Lamentavelmente esta singela cerimônia não
se repetiria nos dias seguintes).
- Após o jantar em São Lourenço
houve a leitura de mensagens, escritas por cada peregrino
no sábado, em Santo Ângelo. Criou-se um
clima de inexplicável sintonia no grupo, com
manifestação emocionada da Juliana e
uma reflexão profunda feita pelo Carlos Alberto,
discorrendo sobre os insondáveis desígnios
que fizeram com que alí estivéssemos,
vindos ao acaso de diferentes lugares, cada um com
sua história pessoal, para compartilhar desta
maravilhosa experiência do Caminho.
- São Miguel emociona por si só. A visão
das imponentes ruínas e as depauperadas indígenas
vendendo ingênuas peças de artesanato
provocam um difuso sentimento de revolta e comiseração.
Depois, o vídeo que mostra a Redução
em toda a sua magnitude realça o sentimento
de revolta. Por quê isto tudo foi barbaramente
destruído? Quem são os culpados? Como
seria a vida do povo indígena se a República
Guarani tivesse sobrevivido? Tantas perguntas sem resposta.
Mas, o ponto culminante da emoção se
dá com o “Som e Luz”. Sob a luz
da lua e das estrelas desfilam na nossa memória
os personagens que aqui viveram os seus sonhos.
- A última noite é carregada de fortes
sensações. Por ser a última, já se
instala uma doce saudade. E a música de Claudino
de Lucca potencializa a emoção, fazendo
rir e chorar.
- A chegada em Santo Ângelo, atravessando abraçados
a Praça da Catedral, com os sinos repicando, é explicitamente
emocionante. Naqueles últimos passos se reproduzem
todas as passadas do Caminho, as alegrias, as dificuldades,
o barro, a chuva, o frio, o carinho das pessoas que
encontramos, a amizade dos companheiros. Pe. Rosalvo
(cura da Catedral Angelopolitana), Marta e algumas
pessoas ligadas ao Caminho nos acolhem nas escadarias
da igreja e nos cumprimentam efusivamente. Missão
cumprida.
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Pia batismal
missioneira no Museu Arqueológico de S.
Luiz Gonzaga |
Recomendações para futuros Peregrinos:
A preparação é fundamental para
aproveitar integralmente o Caminho. No aspecto físico,
a caminhada não apresenta grandes dificuldades,
pois a topografia é agradável, sem subidas íngremes,
e as jornadas diárias não são
excessivamente longas. Com exceção de
poucos quilômetros de asfalto nos acessos das
cidades, o restante do trajeto se dá em estradas
de terra, com alguns trechos bem pedregosos. Por isso
o melhor calçado é a bota de trekking,
de preferência impermeável. Indispensável
uma boa capa, pois caminhar na chuva é sempre
uma possibilidade e pode ser tornar uma experiência
prazerosa. Assim, qualquer pessoa com razoável
condicionamento físico, acostumada a caminhar,
estará em condições de empreender
este Caminho.
Mais importante que a preparação física é a
mental/intelectual. Conhecer os aspectos históricos
e culturais ligados ao Caminho fazem toda a diferença.
Recomendo vivamente a leitura, pelo menos, da história
de Sepé Tiarajú (romance de Alcy Cheuiche).
Também especialmente indicado (embora difícil
de encontrar) é o livro de Clóvis Lugon, “República
Comunista Cristã dos Guaranis”. Pe. Antônio
Sepp escreveu “Viagem às Missões
Jesuíticas e Trabalhos Apostólicos”,
numa linguagem peculiar do século XVIII e a
propriedade de quem trabalhou durante 40 anos nas Missões
e fundou a Redução de São João
Batista. Muito interessante! Mais acessível
e muito abundante é a literatura sobre o assunto
na internet.
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