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Objetivando
concretizar um sonho acalentado no final de 2002,
rumei ao Rio Grande do Sul no último mês
de Maio, para percorrer o Caminho das Missões,
num total de 180 quilômetros trilhados a pé,
em seis dias e meio. Para tanto, após contatar
a Agência de Viagem responsável pela
integração dos participantes, juntei-me
a um seleto grupo de 13 pessoas, formado por 6 homens
e 7 mulheres, sendo que do total, 5 eram procedentes
de Brasília, 2 paulistas, 1 mineiro e 5 gaúchos. É interessante
destacar que desse grupo heterogêneo, 7 já tinham
percorrido o Caminho de Santiago de Compostela, o
que facilitou sobremaneira a caminhada e a interação
entre os participantes. Necessário esclarecer
que este relato representa ponto de vista pessoal,
exclusivo do autor, sobre o que vivenciou e observou
durante a caminhada, não obrigatoriamente
o que as demais pessoas do grupo viu, pensou ou sentiu.
Antes de detalhar a aventura, um pouco da história
deste novel Caminho.
A História do Caminho das Missões
Na área atual do Rio Grande do Sul, os índios
guaranis ocuparam as terras férteis do rio
Uruguai até o litoral, impondo aos outros
grupos existentes sua cultura e seu modo de ser.
Viviam em aldeias coletivas, eram horticultores,
conheciam a cerâmica e a pedra polida. Desenvolveram
a plantação de muitos vegetais nativos – comestíveis
e medicinais – nas suas roças em meio à floresta.
Entre as contribuições que legaram
para o povo gaúcho, estão os termos
lingüísticos, entre eles os nomes de
rios e localidades, o folclore, com suas lendas e
cantos, o cultivo de inúmeras plantas e, também,
alguns hábitos alimentares como o churrasco
e o chimarrão.
Foi junto a estas comunidades indígenas, por
volta de 1600, que os jesuítas desenvolveram
o projeto da conquista espiritual a serviço
da Coroa Espanhola. As Missões Jesuíticas
representaram uma das formas de colonização
na América, com a dupla função
de assegurar territórios conquistados e catequizar
os povos nativos. No período de pleno desenvolvimento,
em uma vasta área hoje pertencente ao Brasil,
Argentina, Paraguai e Uruguai foi criada uma rede
de 30 povoados, além de estâncias, ervais,
invernadas, tudo ligado por estradas, formando uma
complexa malha viária, com as mais diversas
funções.
O encontro de duas culturas diferenciadas: a guaranítica e a européia
deu origem a um novo modo de ser, o “missioneiro”. O povo missioneiro
tem a base inicial de sua formação étnica nos índios,
portugueses e espanhóis (origem do gauche ou gaúcho, andarengo
e peleador no período pós-jesuítico-guarani), que contribuiu
decisivamente para a formação cultural do atual gaúcho e
sua forte identidade em defesa de sua terra.
As disputas e interesses políticos entre Portugal e Espanha determinaram
as guerras Guaraníticas (1754-1756), a expulsão dos jesuítas
da América (1767/1768) e a conseqüente decadência das Missões.
Os índios missioneiros, vencidos, espoliados, despojados de sua terra,
aos poucos abandonaram os povoados, dispersando-se pelo território platino.
E a floresta tomou as cidades abandonadas, e toda a experiência desenvolvida
em mais de 150 anos ruiu junto às paredes de pedra e barro.
O Projeto Caminho das Missões
O “Caminho das Missões Jesuítico-Guarani” é a
realização de um roteiro místico/cultural
de peregrinação que percorre os mesmos
trajetos que ligavam os antigos povoados missioneiros
e que compunham o conjunto – urbano e rural – das
Missões Jesuíticas, situados hoje,
em parte no território brasileiro, argentino
e paraguaio.
A etapa inicial, com 180 quilômetros, abrange a região dos 7 Povos
das Missões Orientais, localizada no noroeste do Rio Grande do Sul. A
concepção original do Caminho, como parte integrante do produto
turístico das Missões Orientais, surgiu da própria potencialidade
místico/religiosa, histórica e ecológica do espaço
em questão. Da fusão de idéias e conhecimentos específicos
provenientes de pessoas ligadas aos setores de turismo, marketing, história
e holística surgiram a intenção da “redescoberta” e
planejamento do Caminho como um roteiro alternativo a ser disponibilizado aos
interessados.
Das antigas trilhas guaranis, passando pelos caminhos missioneiros e depois pelas
velhas estradas dos tropeiros é que se orientou e traçou o caminho
que ora se apresenta como uma jornada, seja de peregrinação mística,
tradição, lazer, pesquisa ou esporte. O percurso indicado segue
naturalmente a mesma orientação dos antigos caminhos, hoje relativamente
modificados pela ação do homem e suas necessidades de exploração
do espaço, segue, também, pontos de interesse que servem como referenciais
históricos e místicos para o caminhante.
Localização e Proposta
do Caminho
O Caminho das Missões está situado
a noroeste do Rio Grande do Sul, na encosta ocidental
do Planalto Riograndense e apresenta um clima ameno
com temperatura média que varia de 38º no
verão e 5º no inverno, sua altitude é de
aproximadamente 280 metros acima do nível
do mar.
Inerente à finalidade para a qual foi criado,
o Caminho das Missões propõe uma jornada
de autoconhecimento e também de contato com
o passado missioneiro. Percorre, ele, parte das antigas
estradas dos jesuítas e guaranis. E mais que
tudo, propicia uma integração com o
atual povo das Missões, que encanta a todos
por sua hospitalidade, autenticidade e solidariedade.
A Minha
Caminhada
No sábado, dia 09/05/2003, às 14 horas,
os futuros caminhantes se reuniram na sede da Associação
dos Amigos do Caminho das Missões, localizada
na Praça Central da cidade de Santo Ângelo
(RS). Ali, após as apresentações
formais, fomos encaminhados até a igreja Catedral
para assistirmos uma palestra feita pela Sra. Estela,
onde os participantes receberam informações
sobre o Caminho que iriam trilhar e esclarecimentos
sobre a História das Missões. Depois,
cada caminhante recebeu um cajado, uma camiseta e
uma Cruz Missioneira, devidamente benzida, símbolo
do Peregrino das Missões. Foi feita então
a foto oficial do grupo. Encerrada a cerimônia
que nos acolheu com boas vindas, fomos conduzidos
(numa Perua Van) por estradas asfaltadas até o
ponto inicial de nossa caminhada, a cidade de São
Nicolau (RS), distante 180 quilômetros por
estradas vicinais de terra batida que percorreríamos
até o ponto final da nossa caminhada, a Catedral
da cidade de Santo Ângelo. Integrado ao grupo
tínhamos um guia do caminho, o ROMALDO, gaúcho
de Três Passos, que nos conduziria pelos pagos
riograndenses nos sete dias seguintes.
A chegada ao marco inicial da caminhada aconteceu por volta das 17 h e 30 min,
a tempo de, monitorados pelo guia local Andréia, percorrermos as ruínas
da Redução (do latim “reducere”, no sentido de conduzir,
encaminhar, que se origina no objetivo dos jesuítas em delimitar o espaço
físico dos índios), bem como o Museu Arqueológico. A cidadezinha
de São Nicolau, atualmente com 5 mil habitantes, foi fundada em 1626 pelos
Padres Jesuítas, às margens do Rio Uruguai, situando-se a 20 quilômetros
da fronteira com a Argentina. No entanto, com o ataque dos bandeirantes e catástrofes
naturais, o povoado foi destruído e abandonado, para mais de meio século
depois, em 1687, ser reconstruído próximo ao local da 1ª fundação.
Parte das ruínas daquele tempo foram preservadas no Sítio arqueológico
situado na praça principal; algumas estruturas arquitetônicas se
mantêm até hoje, como uma adega, paredes do cabildo (espécie
de prédio administrativo), cotiguaçu (construção
destinada às crianças, aos órfãos e às viúvas)
e igreja.
Após o gostoso jantar servido no bar do “Dito”, onde fomos
recebidos com muito carinho pelos proprietários, Sr. Nicolau e Dona Gleida,
rumamos até o CTG local onde estava acontecendo um Concurso de Trovas
e Poesias Gauchescas, e, após, o encerramento desse evento, haveria um
baile. Ali, fomos festivamente recepcionados e homenageados pelo Prefeito Municipal,
Sr. Heitor Paveglio, bem como pelas demais autoridades presentes.
Para pernoitar, nos alojamos numa construção recente, especialmente
adaptada para tal fim. Num único salão distribuímos nossos
pertences diretamente no chão e, deitamos em colchonetes de pouca espessura,
cada um utilizando seu “saco de dormir”. O local bastante simples,
ainda em fase de estruturação, conta com apenas um banheiro, obrigando
todos a repensar o conforto de suas casas e o objetivo comum ali naquele momento.
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